"Diário de Notícias", 24.02.1931, pág. 1 - Cópia exacta da grafia original
UMA GRANDE POETISA PORTUGUESA
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Busto de FE, por Diogo de Macedo, Jardim Público, Évora Inaug.1949 |
Passaram-se anos e eu deixei de ouvir falar e Florbela, como deixo de ouvir falar, de quando em quando, em certas poetisas que encontraram no casamento a rima difícil que procuram.
Há poucos meses, porém, pegando numa revista literária, , topei com um soneto que entrou pelos meus olhos dentro, um soneto que fecha com estes versos maravilhosos, versos que justificam Paul Valery quando diz «que o lirismo é o desenvolvimento de uma exclamação»:
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
Fiquei impressionado, confesso, mas duvidoso: «Quem sabe? Talvez fosse por acaso…» Mas pouco depois, na semana seguinte topei com outro soneto e compreendi, definitivamente, que não estava diante duma poetisa de «acaso», como ao princípio julgara, mas diante de uma grande poetisa, duma poetisa-poeta. Nesse momento, devo dizê-lo, havia já quem fizesse justiça completa a Florbela Espanca e é lealdade registar os nomes das suas companheiras Teresa Leitão de Barros, Laura Chaves, Fernanda de Castro e outros nomes. com certeza, que procuravam trazê-la para a luz e para a glória! De repente, quando já estava no prelo o seu livro «Charneca em Flor», o beijo trágico da morte, o beijo da morte, uim beijo mutuo consentido, um beijo pedido... Esse beijo iluminou, bruscamente, todos os seus versos, timbrou-os, serviu de ex-libris a Florbela, cujo nome deixou e ser ridiculo e precioso, cujo nome ganhou um sabor medianimico, espectral. Florbela matou-se, «desfolhou-se» como uma flor cansada e a sua morte foi um pingo de lacre vermelho sobre a sua inquietação, sobre a sua tortura... A sua morte dramatica, angustiosa - selo da sua arrepiante sinceridade, soma dos seus versos... Se uma duvida perturba a nossa emoção, na leitura do seu livro, se um soriso de vaga ironia pretende secar os nossos olhos humidos, ha logo uma voz intima que nos diz: «Pois sim, amas ela matou-se...» E o perfil aereo, o perfil astral de Florbela Espanca acompanha-nos, numa flutuação, até ao ultimo verso de «Charneca em Flor».
Fiquei à espera do seu livro, do regresso da sua alma... Entretanto, o «Diãrio de Notícias», na sua página «De Norte a Sul», publicava um artigo comovido, enternecido, de Celestino David, em que se anunciava, em lindas palvras de justiça, a próxima aparição da «Charneca em Flor», da charneca em dor... A ilustrar esse artigo, um soneto inédito do livro, um soneto que apagou todas as possíveis dúvidas que pudessem existir ainda no meu espírito sobre o grande caso da poesia portuguesa, de lirismo portuguès, que é o caso dramático de Florbela Espanca. Esse soneto chama-se «Pobre de Cristo» e é todo o coração do Alentejo em labareda e cinza e é toda a nostalgia da terra natal, que se perdeu, a terra familiar e estranha, que nós conhecemos e que já não nos conhece... Não resisto à tentação de transcrever de novo, essa pequena obra-prima que me fez aguardar a «Charneca em Flor», com alvoroço, como se espera uma relíquia. Eis o soneto:
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viste o mar,
Onde tenho o meu pão e a minha casa.
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folhas…a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra moirisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu
Aonde a mãe que eu tive e que morreu
Foi moça e loira, amou e foi amada!
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite
Sou um pobre de longe, é quasi noite,
Terra, quero dormir, dá-me pousada!
No próprio dia em que li este soneto, cujos versos se agarraram a mim, como vozes, e nunca mais me largaram, parti para Coimbra, para a cidade-poetisa, trovadoresca, «a gravura suspensa que Portugal oferece aos olhos do sud-express». E foi em Coimbra, onde as casas dos estudantes, alcandoradas nos telhados, nas ruas estreitas, são como ninhos em árvores centenárias
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