Contabilidade doméstica, feita no verso de uma fotografia de Florbela Espanca, realizada no estúdio de João Maria, seu pai. A foto pertence ao espólio de Florbela Espanca existente na Biblioteca Nacional de Lisboa. Azeite, banha, cevadinha, cafe, arroz, que a vida não é só poesia e também requer coisas mais prosaicas...
domingo, 19 de dezembro de 2021
domingo, 28 de novembro de 2021
[0218] Livro famoso sobre (ou contra) Florbela Espanca, do padre José Augusto Alegria
O exemplar conserva a cinta original. Custava 17$50, na altura da sua saída e ostenta o seguinte "Aviso prévio":
A leitura deste livro é reservada aos cristãos com fé.
Aos cristãos sem fé, servirá de revulsivo e por isso não é de aconselhar.
Aos outros, aos sem fé nenhuma, filhos legítimos ou bastardos de todas e quaisquer ideologias chamadas libertadoras, a todos se avisa do perigo desta leitura.
Antes disso, a seguinte dedicatória:
Às mães e filhas de todos aqueles para quem este livro não for um escândalo.
[0217] Florbela "maguada"... cada vez mais valiosa
O "Livro de Mágoas" de Florbela Espanca, editado em 1919 na Tipografia Maurício (Lisboa), saiu com título grafado como "Livro de Máguas". Eis o preço que hoje atinge (leilão recente). Esperemos que alguns calipolenses tenham esta edição. Se assim for... estão de grande!
[0216] Pequenas histórias "florbelianas"
O túmulo de Florbela Espanca, não sendo peça de elevado nível artístico, é no entanto perfeitamente digno e de modo algum envergonha os pergaminhos da poetisa e da terra em que esta veio ao mundo. Simples e discreto, cumpre a função a que o destinaram, engrandecido pela qualidade do belo mármore que lhe dá forma. Porém, a inscrição "Aqui jaz Florbela Espanca" nasceu com um acento a mais em "jaz". Em data incerta, mas anterior a Dezembro de 2006 (altura em que fizemos a foto que se pode observar no post anterior), pedimos à autarquia da altura que emendasse o incomodativo erro, o que de pronto foi efectuado, repondo-se assim a ortografia correcta que o anterior "jáz" feria, ainda mais em morada eterna de gente de escrita...
Na mesma altura, e relativo ao mesmo espaço fúnebre, fizemos pedido contrário: que fosse colocado um acento em "Magoas" que passou finalmente a "Mágoas" - o que também foi respondido de modo afirmativo pela autarquia. Assim, pouco depois, para além de se ter raspado o acento a mais, colocava-se o que estava a menos. Acontece que neste caso o trabalho revelou-se de pouca profundidade - ou seja, poucos anos após, a tinta da pintura do acento pouco escavado, com muito sol e chuva em cima, já estava praticamente desaparecida. O que acontecerá, após a actual limpeza? Aqui fica a nota, pelo menos, para quem a quiser ler... e actuar em conformidade.
| Foto Rádio Campanário |
| Foto Rádio Campanário (pormenor) |
[0215] Limpeza do túmulo de Florbela Espanca
O AVV aplaude vivamente a meritória iniciativa do Município de Vila Viçosa que não é a primeira, mas que já estava a ser necessária e aproveita para fazer um exercício de imaginação:
| Foto Joaquim Saial, 24.12.2006 |
Imaginemos que os "Adoradores de Florbela de Freixo de Canhão às Costas" vão a Vila Viçosa e se lembram de colocar uma placa sobre o seu túmulo, a comemorar a visita…
Imaginemos que os "Amigos de Florbela de Sarilhos Enormes" vão a Vila Viçosa e se lembram de colocar uma placa sobre o seu túmulo, a comemorar a visita…
Imaginemos que os "Admiradores de Florbela de Alguidares de Baixo" vão a Vila Viçosa e se lembram de colocar uma placa sobre o seu túmulo, a comemorar a visita…
Imaginemos que os "Seguidores de Florbela de Vila Velha de Idosos" vão a Vila Viçosa e se lembram de colocar uma placa sobre o seu túmulo, a comemorar a visita…
Imaginemos que os "Fanáticos de Florbela da Aldeia dos Poetas" vão a Vila Viçosa e se lembram de colocar uma placa sobre o seu túmulo, a comemorar a visita…
Imaginemos que mais 346 grupos de amigos de Florbela com a mesma ideia (de Portugal e quiçá do Burkina Faso ou da Mongólia) visitam o seu túmulo...
Imaginemos!...
Imaginemos!...
Imaginemos!...
E por aqui nos ficamos…
domingo, 31 de outubro de 2021
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
[0194] Aquilo que se persiste em chamar "estátua", é de facto um "busto"
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
[0193] Erros persistentes, falhas que não desaparecem
Estas duas enganosas histórias têm sido repetidas e repetidas e repetidas!...
Raramente se conta que o castelo medieval de Vila Viçosa desapareceu, para dar lugar à fortaleza quinhentista que hoje lá vemos. O leitor não é informado de que o que resta do tempo medievo são as muralhas (a cerca, muito restaurada) e alguns adereços do castelo antigo implantados no novo e que aquele "castelo" não é do século XIII. Raios!...
Quanto à "estátua" de Florbela Espanca, há de facto uma mas não em Vila Viçosa e sim em Oeiras, de Francisco Simões, no Parque dos Poetas. E uma escultura abstracta, intitulada "Homenagem a Florbela Espanca", de Armando Martinez, no Parque Dr. Manuel Braga, em Coimbra (freguesia de Almedina). O que há ali em Vila Viçosa é… UM BUSTO! UM BUSTO! UM BUSTO! UM BUSTO! UM BUSTO! Da autoria de Raul Xavier. Chega? Safa!...
quarta-feira, 5 de maio de 2021
[0136] O texto de António Ferro sobre Florbela Espanca, de 24 de Fevereiro de 1931, no "Diário de Notícias" (ver post anterior)
"Diário de Notícias", 24.02.1931, pág. 1 - Cópia exacta da grafia original
UMA GRANDE POETISA PORTUGUESA
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| Busto de FE, por Diogo de Macedo, Jardim Público, Évora Inaug.1949 |
Passaram-se anos e eu deixei de ouvir falar e Florbela, como deixo de ouvir falar, de quando em quando, em certas poetisas que encontraram no casamento a rima difícil que procuram.
Há poucos meses, porém, pegando numa revista literária, , topei com um soneto que entrou pelos meus olhos dentro, um soneto que fecha com estes versos maravilhosos, versos que justificam Paul Valery quando diz «que o lirismo é o desenvolvimento de uma exclamação»:
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
Fiquei impressionado, confesso, mas duvidoso: «Quem sabe? Talvez fosse por acaso…» Mas pouco depois, na semana seguinte topei com outro soneto e compreendi, definitivamente, que não estava diante duma poetisa de «acaso», como ao princípio julgara, mas diante de uma grande poetisa, duma poetisa-poeta. Nesse momento, devo dizê-lo, havia já quem fizesse justiça completa a Florbela Espanca e é lealdade registar os nomes das suas companheiras Teresa Leitão de Barros, Laura Chaves, Fernanda de Castro e outros nomes. com certeza, que procuravam trazê-la para a luz e para a glória! De repente, quando já estava no prelo o seu livro «Charneca em Flor», o beijo trágico da morte, o beijo da morte, uim beijo mutuo consentido, um beijo pedido... Esse beijo iluminou, bruscamente, todos os seus versos, timbrou-os, serviu de ex-libris a Florbela, cujo nome deixou e ser ridiculo e precioso, cujo nome ganhou um sabor medianimico, espectral. Florbela matou-se, «desfolhou-se» como uma flor cansada e a sua morte foi um pingo de lacre vermelho sobre a sua inquietação, sobre a sua tortura... A sua morte dramatica, angustiosa - selo da sua arrepiante sinceridade, soma dos seus versos... Se uma duvida perturba a nossa emoção, na leitura do seu livro, se um soriso de vaga ironia pretende secar os nossos olhos humidos, ha logo uma voz intima que nos diz: «Pois sim, amas ela matou-se...» E o perfil aereo, o perfil astral de Florbela Espanca acompanha-nos, numa flutuação, até ao ultimo verso de «Charneca em Flor».
Fiquei à espera do seu livro, do regresso da sua alma... Entretanto, o «Diãrio de Notícias», na sua página «De Norte a Sul», publicava um artigo comovido, enternecido, de Celestino David, em que se anunciava, em lindas palvras de justiça, a próxima aparição da «Charneca em Flor», da charneca em dor... A ilustrar esse artigo, um soneto inédito do livro, um soneto que apagou todas as possíveis dúvidas que pudessem existir ainda no meu espírito sobre o grande caso da poesia portuguesa, de lirismo portuguès, que é o caso dramático de Florbela Espanca. Esse soneto chama-se «Pobre de Cristo» e é todo o coração do Alentejo em labareda e cinza e é toda a nostalgia da terra natal, que se perdeu, a terra familiar e estranha, que nós conhecemos e que já não nos conhece... Não resisto à tentação de transcrever de novo, essa pequena obra-prima que me fez aguardar a «Charneca em Flor», com alvoroço, como se espera uma relíquia. Eis o soneto:
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viste o mar,
Onde tenho o meu pão e a minha casa.
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folhas…a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra moirisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu
Aonde a mãe que eu tive e que morreu
Foi moça e loira, amou e foi amada!
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite
Sou um pobre de longe, é quasi noite,
Terra, quero dormir, dá-me pousada!
No próprio dia em que li este soneto, cujos versos se agarraram a mim, como vozes, e nunca mais me largaram, parti para Coimbra, para a cidade-poetisa, trovadoresca, «a gravura suspensa que Portugal oferece aos olhos do sud-express». E foi em Coimbra, onde as casas dos estudantes, alcandoradas nos telhados, nas ruas estreitas, são como ninhos em árvores centenárias
[0135] O texto de António Ferro sobre Florbela Espanca, de 24 de Fevereiro de 1931, no "Diário de Notícias"
O texto é muitas vezes citado, quando se fala da poetisa calipolense, mas há grande dificuldade em encontrá-lo, exceptuando-se o caso dos frequentadores de bibliotecas e hemerotecas – ou seja, o grande público não o conhece.
Fomos dar uma volta ao nosso "baú calipolense" e lá estava o dito, mandado reproduzir há anos a partir de microfilme na Biblioteca Nacional de Lisboa e arquivado numa folha A4 quase como estava no periódico (na altura foi necessário fazer um arranjo de recortes, para caber numa só página – mas o texto está todo, bem como a fotografia e legenda da mesma).
Aqui fica pois, obviamente ilegível, dadas as limitações do mecanismo do blogue. Mas estamos a transcrevê-lo e em breve estará facilitado, para quem o quiser ler ou copiar.
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
[0120] Homenagem a Florbela Espanca em Vila Viçosa, por altura do 90.º aniversário da sua morte
Tal como havíamos anunciado, decorreu hoje, pelas 10h00, uma singela homenagem a Florbela Espanca, passados exactos 90 anos sobre a sua morte.
A cerimónia foi organizada por um grupo de Calipolenses e pelo Grupo "Amigos de Vila Viçosa", contando com a presença da Sociedade Filarmónica União Calipolense e com o apoio da Junta de Freguesia de Conceição - São Bartolomeu.
A deposição das coroas de flores teve lugar junto ao monumento/busto de Florbela (projecto da autoria do escultor luso-macaense Raul Xavier, com plinto do arquitecto Raul David) na Praça da República em Vila Viçosa.
NOTA: a iniciativa partiu do professor Manuel Talhinhas e as imagens de reportagem foram-nos enviadas gentilmente pelo Dr. Tiago Salgueiro.










