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sábado, 1 de março de 2025

[400] Joaquim Urbano da Veiga, um farmacêutico prestigiado, mas algo esquecido em Vila Viçosa e que é preciso "ressuscitar"

Joaquim Urbano da Veiga (Vila Viçosa, 1836-1915) 

Dirigente associativo do sector farmacêutico. Natural de Vila Viçosa. Admitido em 1853 como praticante na farmácia Azevedo & Irmão, em Lisboa, de que viria em 1884 a  tornar-se  sócio,  obteve  em  1857  o  diploma  de  farmacêutico  de  1.ª  classe,  na  Escola  Médico-Cirúrgica de Lisboa. Seguiu a carreira militar na Armada, onde atingiu o posto de capitão-tenente. Ingressou em 1862 no  hospital  do  ramo,  na  qualidade  de  farmacêutico,  e  viria  a  chefiar  o  Serviço  Farmacêutico  Naval. Secretário e, entre 1875 e 1880, presidente da Sociedade Farmacêutica Lusitana, integrou todas as comissões do organismo, de que seria membro benemérito. Fez ainda parte da Comissão de Redacção  da  Farmacopeia  Portuguesa  (1876)  e  da  comissão  que,  em  1903,  procedeu  à  revisão  do documento.Autor  do “Formulario Officinal  e  Magistral”,  conhecido  como  “Formulário  Veiga”  (1868), publicou vários pareceres e artigos científicos no Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana. Foi  sócio   correspondente   da  Academia   Real   das   Ciências   de   Lisboa,   do   Colégio   dos   Farmacêuticos de Madrid, do Instituto Médico Valenciano e, entre  outras,  da  Sociedade  Real  de  Farmácia  de  Bruxelas,  além  de  sócio  honorário  da  Sociedade  de  Artistas  de  Coimbra  e  da  Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa. Foi agraciado com a Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e com a Ordem de Avis.

Fonte:   “Grande   Enciclopédia   Portuguesa   e   Brasileira”,   Lisboa-Rio   de   Janeiro,  Editorial Enciclopédia, Ldª, 1936-1960, vol. XXXIV, p. 431.

domingo, 18 de dezembro de 2022

[0362] O pintor e escultor calipolense Espiga Pinto, em 1965

A foto está inserida numa pagela da Gravura, Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, Lisboa, E tem no verso uma gravura de Espiga Pinto intitulada "Carro de Molhos".


quarta-feira, 9 de novembro de 2022

[0356] Inauguração de 21 painéis de azulejos da autoria do calipolense Carlos Aurélio, na Escola Secundária D. Sancho II, em Elvas

Apresentação pública de 21 painéis de azulejos sobre Disciplinas Escolares, realizados por Carlos Aurélio para a Escola Secundária D. Sancho II, Elvas, entre 2016-2022. O autor, natural de Vila Viçosa, é pintor, fotógrafo, escritor e ex-docente daquele estabelecimento de ensino.

O evento terá inicio pelas 15h00 de sexta-feira próxima, 11 de Novembro de S. Martinho. Os painéis a inaugurar estão fixados nas paredes dos corredores da escola e podem ser vistos em qualquer outra altura.

O "Arquivo de Vila Viçosa" publica aqui imagens de alguns dos painéis.


Painel "Filosofia", com descritivo

Painel "História"

Painel "Matemática", com descritivo

Painel "Artes Visuais"

Painel "Inglês"

Painel "Electro-Mecanotecnia"

Painel "Biblioteca"

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

[0354] Praça de Touros José Trincheira, Vila Viçosa

Proposta de baptismo da mais que centenária e até agora anónima Praça de Touros de Vila Viçosa como Praça de Touros José Trincheira seguiu enviada hoje por nós para as entidades competentes. É uma proposta mais que justa, tendo em conta alguém que através da sua actividade faz divulgar como poucos em Portugal, Espanha e noutras paragens o nome da nobre vila museu. Propriedade privada, o redondel calipolense foi inaugurado ainda em madeira e incompleto em 12 de Setembro de 1897. Já pronto, ali se realizaram duas corridas a 11 de Setembro do ano seguinte.




"Diário de Lisboa", 13.6.1954, a mais antiga entre
as centenas de notícias que temos no nosso
arquivo sobre José Trincheira

[0351] Um catálogo de exposição de Espiga Pinto (2006) com dedicatória e assinatura do próprio (colecção particular)

sábado, 17 de setembro de 2022

[0341] Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha: o outro busto de Henrique Pousão

A atribulada história deste monumento já foi contada pelo autor deste blogue no jornal "Diário de Notícias" de 22.4.1989 e na revista de cultura "Callipole" n.º 17, de 2009. Hoje, no "Arquivo de Vila Viçosa", imagens da cabeça homónima existente no Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha, junto ao Museu de José Malhoa. Acrescenta-se uma fotografia de quadro inédito do autor de ambas, o escultor Américo Gomes, existente em colecção particular portuguesa. 

O assunto já foi falado no post 107, mas agora apresenta-se mais algum material que o completa.

O monumento de Vila Viçosa - Foto Joaquim Saial

O busto das Caldas da Rainha - Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

Assinatura no busto das Caldas da Rainha - Foto Joaquim Saial

Assinatura no busto de Vila Viçosa - Foto Joaquim Saial
 
Américo Gomes - Fotografia divulgada em catálogo de 1935

Américo Gomes pintado por Paulo Gama, 1961

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

[0334] Relembrando textos do programa das Festas dos Capuchos (7 - 2016)

  Sobre as Festas de 2022, ver AQUI

CAPUCHOS, A FESTA MAIOR DE VILA VIÇOSA, NO INÍCIO DOS ANOS 20... DO SÉCULO XX

Joaquim Saial

Grafia original

A notícia mais antiga que aqui trazemos sobre a Festa dos Capuchos é do diário regionalista de Évora, "O Alentejo", de 27 de Agosto de 1921 [1]. Diz-se ali que Vila Viçosa ia "tirar-se do (…) costumado torpor em que sempre se [encontrava], pelas anunciadas festas em honra do Senhor Jesus da Piedade [2]". O apontamento anónimo, mas pelo teor certamente da pena de correspondente da vila, para além de falar nessa quebra de rotina do langor local, detinha-se em considerações interessantes e elucidativas da vivência calipolense desses tempos de há cerca de 100 anos [3].

Festas estas, que vão ser celebradas com a maior pompa possivel, devido aos esforços empregados pela Comissão constituida, da qual fazem parte verdadeiro amigos, procurando sempre engrandece-la em tudo que seja necessario.

São êles os srs. Padre Manso [4], Miguel Caeiro, Antonio Branco, José Aldeagas, Antonio Pombeiro e Pedro Martinho que, com a sua muito bôa vontade, teem conseguido vencer os maiores obstáculos que se teem metido de permeio.

Festa antiga e concorridissima por todas as terras do Alentejo, que ocorrem divertir-se nos bailes e descantes populares que duram por essas noites adiante.

Quanto é belo tudo recordar-se tudo quanto se diga histórico?...

O Templo e o Convento dos Capuchos onde terão logar nos dias 11 [5], 12 e 13 do mez próximo as festas tão tradicionais, já data do ano 1606 (…)

O texto prossegue com descrição mais ou menos pormenorizada do edifício e mais algumas indicações que hoje são significativas em termos de história do mesmo e da festa:

O edifício acha-se quasi todo em bom estado de conservação, contribuindo um frade de nome João Pedro Serra, que velou por ele sempre com carinho por muitos anos.

Actualmente pertence á viúva de António Carlos da Silveira Menezes, que tambem lhe deu a sua justa conservação.

Terminava o artigo com referência à Casa de Bragança e de novo a Vila Viçosa, chamando-lhe "modestíssima terra que fica a um canto da província do Alentejo" mas "sempre olhada como devia merecer, pois o seu nome era pronunciado com o respeito que lhe era devido."

Ressaltam então da saborosa narrativa, para além de dados sobre a comissão das festas, os nomes de um dedicado conservador e de pelo menos uma proprietária do local, e a menção aos bailes e descantes populares que duravam até de madrugada.

O mesmo jornal, na sua edição de 10 de Setembro de 1922 [6] volta a aludir às festas. Sob o título "Vila Viçosa – Deslumbrantes festas em honra do Senhor Jesus da Piedade nos dias 10, 11 e 12", podia ler-se o seguinte texto:

Com um vastissimo e magnifico programa realizam-se hoje, amanhã e depois as imponentes festas em Vila Viçosa, linda e florescente vila alentejana.

As tradicionais festas denominadas dos Capuchos devem este ano deixar a perder de vista as celebradas nos anos anteriores a avaliar pelo grandioso programa, que não publicamos na integra, por absoluta falta de espaço.

Festas religiosas, pregando o eloquente orador sacro, exm.º sr. P.e Lopes Manso, excelentes concertos musicais pelas bandas dos Francêses, do Barreiro e Humanidade de Palmela e garraiadas explendidas, tudo, enfim, promete atraír enorme concorrencia a tão afamados festejos regionais.

Nada de muito diferente dos tempos actuais, como vemos, incluindo as garraiadas, uma das faces da vertente taurina que as festas dos Capuchos ainda mantêm, consubstanciada em touradas, largadas e brincadeiras taurinas.

Precisamente desta festa, "O Alentejo" faz três dias depois [7] descrição pormenorizada, através de Ruy de Mello. O autor começa por se referir à modernidade dos tempos e conta que em vez de ir, como antes se fazia, num carro de molas de azinho, chegou de comboio, "um comboio vagaroso, onde uma multidão ruge e canta, apertada como em latas de conserva". É este o ambiente que Mello nos oferece e que parece ser o transmitido pelos que de Évora se dirigiam a Vila Viçosa, em animada romaria, para os divertimentos capuchais. 

Chegado, o nosso jornalista vai a pé para o terreiro festivo e disso se queixa: "Da estação até aos Capuchos é uma boa tirada. Fui a pé por ignorar que existem trens que fazem a carreira do recinto da festa para a vila e vice-versa. Pelo caminho, muito pó – aquele pó que é companheiro do sol aqui no Alentejo…" Mais duas referências curiosas, portanto, verificando-se que a afluência de gente proveniente dos arredores era tanta que até organizadas carreiras de trens havia… por caminhos de terra batida, numa urbe ainda com poucos empedrados, pouca calçada. Mas mesmo assim chega num instante ao templo: "Achei-me sem querer, quasi, no largo da igreja. Havia, áquela hora umas raras pessoas. Da igreja vinham cantos religiosos onde destacava uma voz de falsête capaz de acordar um morto." 

Entretanto encontra Raul Matroco [8] no adro da igreja e na companhia do amigo prossegue a sua visita ao local. Este Matroco, que também escrevia no jornal, era possivelmente calipolense ou pelo menos de família da terra, pois na casa de uns primos Matroco falecera em 1884 Henrique Pousão. Inevitavelmente, comenta o quadro dos fradinhos escultóricos que velam um companheiro: "É muito curioso e ráro este Presépio [9] avultando muitos Capuchos com dedos, braços e pernas quebradas pelo rapazio e concertadas há pouco tempo."

E entra no templo. Ali, dá com o Padre Lopes Manso em plena e animada sessão oratória. Esta, embora não de teor religioso, fala dos céus. Mas uns céus de aviação nos seus tempos áureos. O Padre Manso gabava aos fiéis, "no meio do mais rigoroso silêncio", a gloriosa viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, recentemente realizada, com várias peripécias e transtornos, entre 30 de Março e 17 de Junho de 1922. Mas acabado este moderníssimo sermão, começou a ladainha. Mais alguns cânticos e a cerimónia estava terminada.

É então hora de almoçar, em casa do capitão Francisco Ribeiro, que conhece por intermédio de Raul Matroco e o recebe com "requintes de gentileza". E aproveita para gabar a simpatia das gentes da terra, lembrando que se em Vila Viçosa já não existiam na altura descendentes de reis, pelo menos ali viviam ainda representantes da velha fidalguia portuguesa, pelo nascimento e pela educação.  

Às cinco horas, está na corrida de touros, de imediato interrompida por fortíssima carga de água.

O pânico foi enorme, apertando-se toda gente de encontro á porta principal. Os vestidos de organdí [10], de que havia profusão, pegavam-se aos corpos das mulheres que nos faziam lembrar certas bonecas muito escorridas de ancas e de seios… As vacas eram razoáveis. O pessoal – amadores – fez o que poude, á custa de muito trambolhão que provocou risota.

Fraca corrida, de cartel para esquecer, e chuva a cântaros, numa tarde sem história mas com farto elemento feminino, ao que parece – ou que ao autor pareceu, em sugestiva observação anatómica. Este, voltará ainda à lama do arraial à noite, para ouvir as bandas atrás anunciadas, do Barreiro e de Palmela, e ver o fogo-de-artifício, junto à "igreja lindamente iluminada". 

Cerca de 100 anos depois, nada parece ter mudado, tirando a chegada de vendilhões de américas e áfricas e de etílicas barracas cervejeiras que nos dias de festa agora se avantajam, na pracinha de três igrejas, algumas casas, um coreto, um chafariz e um redondel. Ou seja, apesar de tudo, a tradição aqui, ainda é o que era…

NOTAS:

[1] P. 4.

[2] Do conjunto monástico que dá suporte religioso às festas constam a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, o Convento de São Francisco e respectiva cerca. São remotas as suas origens, de cerca de 1550, tendo passado por vicissitudes várias ao longo dos séculos. A construção actual é mais tardia (1606-10). O conjunto está classificado como Monumento de Interesse Público, através da Portaria n.º 639/2012, DR 2.ª Série, n.º 212, de 2.11.2012. A portaria foi assinada em 22.10.2012 pelo então Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

[3] Esta e as seguintes transcrições seguem a grafia da época.

[4] Padre Lopes Manso, como veremos, em notícia do ano seguinte.

[5] No texto não existe esta vírgula que aqui introduzimos, para facilitar a leitura.

[6] P. 2.

[7] 13.09.1922, p. 1.

[8] Raul Matroco fora co-fundador em 1919 do Grupo Pró-Évora. Em "A Cidade de Évora" (Boletim da Comissão Municipal de Turismo de Évora), Ano 1.º, n.º 4, Setembro.1943, p. 16, Celestino David escreve que Raul Matroco era primo de Pousão.

[9] Designação incorrecta, pois trata-se de um velório, mas que, como vemos, no texto vem em itálico.

[10] Alguns deles decerto feitos pelas irmãs Saial, Conceição e Joana, tias-bisavós do autor deste texto. Afamadas costureiras da vila, nessa altura e em décadas posteriores, tinham cada uma seu negócio de modista: Conceição, no quarteirão destruído nos anos 40, depois na R. Padre Joaquim Espanca e por último no Terreiro de Santo António (actual n.º 10), até finais dos anos 50; Joana, na R. Câmara Pestana, n.º 60, até bastante mais tarde.

[0333] Relembrando textos do programa das Festas dos Capuchos (6 - 2009)

 Sobre as Festas de 2022, ver AQUI

Foto Joaquim Saial

Texto de 2009, inserido na publicação Programa das Festas

O SÍTIO DOS CAPUCHOS E A SUA FESTA, VISTOS DA AMÉRICA…

Joaquim Saial

O Largo dos Capuchos tem momento alto de uma mão cheia de dias, todos os Setembros, e depois apaga-se – literalmente… Finda a festa, desaparecido o público, abaladas as barracas, retirados os altifalantes, desmontados os arcos, limpos os lixos e fechada a igreja que lhe dá título (e a janelinha de fradal e fúnebre recolhimento), retoma o seu ar tranquilo de zona periférica da vila, sempre poético e algo misterioso. Mas não há dúvida de que os Capuchos têm história e manifesta fama no exterior e até na América se sabe do local e do evento que à beira do Outono ali se realiza. Sem mais delongas, divulguemos animado programa e três curiosos factos todos eles esquecidos na bruma do tempo, por nós pesquisados no já desaparecido "Diário de Notícias" de New Bedford, Massachusetts, Estados Unidos da América, um dos mais importantes periódicos étnicos de sempre naquele país (com grafia actualizada). 

30.Setembro.1927 – Vila Viçosa, 25. – Aproximam-se as festas do padroeiro de Vila Viçosa, Senhor Jesus da Piedade, que são por excelência as festas da vila. A comissão organizadora não se tem poupado a esforços para que elas atinjam o máximo brilhantismo e correspondam em tudo às tradições de bairrismo e hospitalidade que caracterizam este bom povo calipolense. As festividades religiosas serão pomposas e brilhantes e principiarão no dia 11 de Setembro [a notícia chegou aos EUA atrasada, como se vê por esta data – ou então queria dizer-se “Outubro”…] pela imponente e majestosa procissão, em que se incorporarão milhares de romeiros e que sairá da igreja de Nossa Senhora da Conceição, recolhendo à igreja dos Capuchos, onde se celebrará a festa a grande instrumental. Os sermões durante os três dias foram confiados a distintos e consagrados oradores. As iluminações serão surpreendentes e o fogo-de-artifício é dos consagrados pirotécnicos Manuel da Silva & Filhos, de Viana do Castelo, que este ano apresentarão verdadeiras surpresas de pirotecnia. A corrida de touros está definitivamente organizada e de maneira tal que satisfará os mais exigentes aficionados. O curro é pertença do conhecido lavrador Francisco Duque, que a capricho fez o aparto, por ser a primeira vez que fornece touros para esta linda praça. Cavaleiros, dois, os distintos e aplaudidos Rufino Pedro da Costa e seu filho Artur Ribeiro da Costa. Bandarilheiros, um belo grupo de profissionais, e forcados o destemido e arrojado grupo de Lisboa capitaneado pelo terrível Chico Marujo e do qual faz parte o valente pegador Matias Leiteiro. Está já assegurado o concurso de três das melhores bandas de música da província, entre elas a Sociedade Musical União Setubalense, que pela primeira vez visita Vila Viçosa. Haverá desafios de futebol e muito em breve deve ser organizado o programa definitivo. (…) Em Vila Viçosa trabalha-se afanosamente para serem recebidos condignamente todos os forasteiros que pela ocasião das festas a visitem.

8.Agosto.1931 – INCÊNDIO NUMA EIRA – Vila Viçosa, Julho 9. – Nas eiras do Outeiro de Ficalho, próximo dos Capuchos, onde diversos agricultores reúnem e debulham os seus cereais, manifestou-se fogo, hoje, quando alguns deles tratavam das suas debulhas, com animais de trabalho. O sinistro teve começo em uma das medas, tendo-se comunicado a todas as demais ali reunidas. Fora inúteis todos os esforços empregados para o dominar. Do quartel do grupo de esquadrões de Cavalaria 3, de onde o fogo foi visto, partiram todas as praças com os recursos de que dispunham, bem como muito povo, logo que foi dado o sinal de alarme, tendo da horta de S. Luís sido levada a água para a extinguir. Apareceram também umas pipas em carros de particulares e uma bomba da Casa de Bragança, conseguindo-se com todos estes elementos salvar os cereais que se encontravam em varias medas na parte Leste, onde ainda as chamas chegaram, animadas pelo vento Norte. Parte dos cereais devorados pelo incêndio estava segura na Companhia Portuguesa de Seguros; outra, na Pátria. O rendeiro das eiras, Manuel Inácio Pereira, sofreu outros prejuízos de importância, pois perdeu uma cabana de madeira e parte dos utensílios que nela tinha. Alguns carros e animais de trabalho que estavam junto das eiras foram salvos com dificuldade. Causou grande estranheza o facto de uma bomba, que há anos fora oferecida, por um particular, à Câmara, ter ali aparecido com a mangueira inutilizada e sem agulheta.

23.Outubro.1933 – ROUBO E BURLA – Évora – No domingo, o motorista Joaquim Lopes, o "Bombo", desta cidade, foi à vila de Azaruja, levar, no seu carro, alguns indivíduos. Ali, apareceram-lhe novos fregueses, que seguiram para Vila Viçosa, onde se realizava a festa dos Capuchos. Quando o carro chegou à referida vila, um dos passageiros pagou a despesa e todos abraçaram o motorista à despedida, e aproveitaram a ocasião para lhe roubarem a carteira, com 2.000 escudos e vários documentos. O "Bombo" regressou, depois, à Azaruja e só então deu pela falta da carteira. Voltou novamente a Vila Viçosa, à procura dos gatunos, que já tinham seguido, também de automóvel, para Estremoz. (…)

20.Outubro.1947 – S. Romão (Vila Viçosa) – Em consequência de um jumento, em que seguia, se ter espantado e saltado um muro, perto dos Capuchos, ficou gravemente ferido o jornaleiro António Espada, de 56 anos, casado, serviçal do sr. João Segurado, lavrador de Vila Viçosa. O pobre homem, que se dirigia para aquela vila, seguiu para o hospital dali, donde transitou para Estremoz.

A todos os calipolenses e forasteiros desejamos, nesta edição de 2009, uma feliz Festa dos Capuchos, com programa a gosto, sem incêndios, carteiras roubadas (que ainda por cima o tempo é de crise) e sobretudo sem coices de burro… mas com animado convívio, boa música, saborosos petiscos, rijas pegas, memorável tourada e alguma inevitável reflexão religiosa, conforme o sentir de cada um – já que a Festa, como o nome bem publicita, se faz em memória dos Capuchos, frades pobres e de benemérito e desinteressado empenho para com o próximo.

[0332] Relembrando textos do programa das Festas dos Capuchos (5 - 2008)

Sobre as Festas de 2022, ver AQUI

Foto Joaquim Saial

Quando este texto foi escrito, em 2008, o presidente francês era Nicolas Sarkozy

UMA FAMÍLIA CALIPOLENSE

Joaquim Saial

Todos os anos, no início de Setembro, metem-se no carro, descem de Paris rumo a sudoeste, galgam a França ocidental diagonalmente, transpõem a grandeza da Espanha, entram por Badajoz e cá estão eles em Vila Viçosa onde, no primeiro dia e durante mais dois ou três, respondem às sacramentais perguntas: “Atão, já cá estás? Atão quando te vás embora?”. Depois é gozar à farta, encher os sentidos de sons, odores e sabores da terra, fruir ao máximo os vinte e tal dias de “vacanças”, sobretudo os de Festas dos Capuchos, que a “usina” lá está na Gália à espera, apesar da crise, apesar de tudo, por qualquer motivo desconhecido ou deus generoso que os protege.

Anacleto Palhinhas, o pai de família, esforçado torneiro-mecânico numa fábrica de automóveis e amante estrénuo da selecção nacional lusitana, desembarcou este ano equipado com a camisola de Cristiano Ronaldo junto à sua casa da Quinta Augusta – que toda a gente sabe ter sido forrada por fora com azulejos de casa de banho que comprou por preço barato, como resto de colecção. Após o primeiro dia, de arrumos, deixou de comer em casa e fez até agora mais de 40 incursões pelas tabernas, bares e restaurantes da vila e prepara-se para mais uma vez ser herói das largadas, mantendo o seu palmarés de feliz agarrador, sem colhidas de maior. “É da cerveja e do Borba, a barriga assim acolchoada resiste a qualquer par de cornos”, diz ele, orgulhoso.

Maria Guilhermina, a cara-metade, divide-se entre as novenas em Nossa Senhora, de quem é fiel devota desde que se entende, e a coscuvilhice com as vizinhas que lhe põem em dia tudo o que se passou na vila, nos onze meses anteriores. Gosta de se gabar do seu emprego de secretária na mairie da capital francesa, mas ninguém sabe que afinal é caixa num McDonald’s onde contudo ganha mais que um professor em princípio de carreira, em Portugal. Aguarda com expectativa a missa nocturna nos Capuchos e a vinda do Roberto Leal, sem saber que os filhos a enganaram com o nome do principal artista convidado. Mas quem a mandou esquecer-se toda a semana deste programa em cima do frigorífico, sem o ler?

Marianita, a filha, está apaixonada há três verões por um saxofonista da filarmónica. O rapaz fica bem na farda e nem as borbulhas que lhe povoam a cara fazem à rapariga parar os suspiros quando o vê arrancar solos vibrantes numa marcha ou num pasodoble. Ele sente-se mais inclinado pela Zéza, que mora para os lados do lago e é ajudante de cabeleireira, mas desde que soube que a Marianita é amiga da filha de um dos porteiros do parisiense Le Slow Club, onde se toca o melhor jazz europeu, já olha mais para ela, pensando que de Vila Viçosa ali e dali ao Blue Note nova-iorquino é um saltinho. Marianita irá passar as noites de festa especada à volta do coreto, a olhar para cima…

Chico, filho mais novo do casal Palhinhas, gasta os dias a jogar à bola com os amigos no Carrascal ou então na piscina, em longos banhos e estrondosos mergulhos de chapão que atormentam os outros utentes. Gordo e anafado, alterna os pequenos-almoços comendo duas tibornas que mete inteiras na boca e vai digerindo com a ajuda de um galão, num dia, ou uma tira de brinhol que gosta de mastigar bem coberta de canela e açúcar, no outro. Não sai ao pai na afoiteza de pega taurina mas é grande aficionado de touradas e jamais perde esse espectáculo, acompanhado de um tio que ainda foi colega do Trincheira mas que achou que trabalhar nos mármores dava mais. Ambos esperam pela corrida deste ano, com grande expectativa. Anacleto já entrou com os euros para os dois bilhetes…

Mas a família tem um quinto “elemento”: Nicolas, o terrier assim rebaptizado após a eleição do actual presidente francês e que antes se chamava Jacques, em honra do anterior. Nicolas, tal como o dono, passa os dias na rua. Descobriu na mata municipal uma cadela que (pasme-se!) gosta de açorda, coisa nunca vista, nestes tempos de odorífera comida de cão enlatada. A canídea reside no Bairro Operário e Nicolas já lá vai a casa. A dona da namorada gosta dele e dá-lhe não só açorda como migas, por vezes com um pedaço de carne de porco ou toucinho frito à mistura. O casal vive um grande romance e parece que ele já prometeu à dona do seu coração que não irão ver o fogo de artifício, do qual a bicha tem medo mortal: “Je resterai ici avec toi, ma chérie!...”, assegurou-lhe.

Chegado a este ponto da presente prosa, o leitor há-de estar cheio de curiosidade e com desejo de conhecer os cinco citados exemplares. Observe bem, esteja atento, que há-de vê-los algures por aí, nestes dias de festa. Provavelmente, anda cada um para seu lado, conforme os interesses pessoais. Claro que é aborrecido chegar ao pé de um estranho e perguntar-lhe se é o sr. Anacleto; ou junto de uma senhora e atirar-lhe com um «É a D. Maria Guilhermina?» Mas se no arraial vir um quatro-patas com o focinho sujo de pão e a cheirar a coentros, poejos ou alhos, tente um “Nicolas!, Nicolas!” Pode ser que resulte…